26.9.04

Quando viramos a Geração Coca-Cola

Eles vieram de Brasília, já com a experiência de shows em sua cidade natal, São Paulo e Rio de Janeiro. O repertório estava basicamente pronto. As músicas “Geração Coca-Cola” e “Ainda é Cedo” começavam a tocar na rádio Fluminense FM, de Niterói. O empurrãozinho veio dos amigos Paralamas do Sucesso, que apresentaram uma fita demo para o diretor artístico da gravadora EMI-ODEON. E com o contrato assinado, os “punks de Brasília” Renato Russo, Dado Vila-Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Rocha gravaram em cerca de dois meses o seu primeiro LP, chamado “Legião Urbana”.

“Na verdade muita coisa aconteceu em um curto intervalo de tempo. Me lembro de termos dispensado dois ou três produtores impostos pela EMI na época, por não haver nenhuma afinidade musical entre nós. E de quase termos voltado para casa de saco cheio por estarem tentando desfigurar o nosso som. Tirando estes contratempos, as gravações em si foram rápidas pois as composições e arranjos já faziam parte do nosso repertório há uma longa data. Dentro do estúdio fizemos algumas novas composições e “Por Enquanto” foi uma delas”, lembra o baterista Marcelo Bonfá.

Clássicos

Produzido por José Emílio Rondeau e lançado em janeiro de 1985, esse primeiro LP veio com os clássicos instantâneos “Será”, “A dança”, “Petróleo do futuro”, “Ainda é Cedo”, “Perdidos no espaço”, “Geração Coca-Cola”, “O reggae”, “Baader-Meinhof Blues”, “Soldados”, Teorema” e “Por enquanto”, em ordem estabelecida e seguida pelo metódico Renato Russo.

O cenário musical da época é descrito por Arthur Dapieve, autor do livro “Renato Russo: o trovador solitário”: “O LP foi lançado ao mesmo tempo em que era realizado o primeiro Rock in Rio. Se isso, por um lado, adiou o estouro dele por cerca de seis meses, por outro preparou o terreno brasileiro para o aparecimento de uma grande banda de rock – se somarmos o lado musical e o comportamental. Na época, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Lulu Santos e Kid Abelha já eram conhecidos a ponto de tocarem naquele palcão do festival. A Legião veio na cola disso e o resto é História”, conta o jornalista.

Jamari França, do O Globo On Line, concorda com esse ponto de vista: “O primeiro álbum da Legião Urbana foi uma espécie de divisor de águas conceitual do rock brasileiro. Nos anos 80, ele foi dominado por um rock ensolarado de bandas cariocas como Blitz, Kid Abelha e Paralamas. Barão Vermelho era um pouco mais densa, mas ainda assim naïf. Eles trouxeram a veemência da revolta contra o estabelecido que está na raiz do rock e que o marcou ao longo da sua história. Principalmente na canção-manifesto Geração Coca Cola, em que esta geração desabafa contra a lavagem cerebral e o cerceamento dos anos de ditadura", afirma.

Força sempre

Com letras que falavam da realidade dos jovens da época, as rádios tocaram música por música, todas hits de sucesso por um público que parecia ter aguardado muito tempo por um LP como o do Legião. “Foi importante por trazer uma nova linguagem. Eles trouxeram o som alternativo sem fazer adaptações do inglês, o que acontecia no rock daqui até então. Seu valor está no fato de garotos de 12 anos os escutarem e sentirem a mesma força. As letras do Renato não envelhecem, é incrível”, ressalta o jornalista e fanzineiro Tom Leão, também do O Globo.

Quem teve a sorte de ouvir esses garotos antes do lançamento pressentia o estouro que causariam. Rafael Borges, empresário da banda desde 1987, lembra a forma como os conheceu: “Eu era diretor artístico de uma casa de shows em São Paulo e um dia chega o Dado acompanhado de integrantes dos grupos Ira e Voluntários da Pátria. Ele tinha uma fita cassete na mão e queria fazer um show na casa. Fiquei encantado com o que ouvi, vi na hora que era a melhor banda que existia na época. Na fita, eles cantavam as músicas do que iria ser o primeiro disco do Legião Urbana, só que o grupo ainda era um trio: o Renato tocava e cantava”, lembra ele.

Descobertas

Se as músicas do Legião possuem uma atualidade assustadora, fazendo com que jovens que nem conheceram a banda em atividade se reconheçam e virem fãs, é porque existia de uma certa forma a preocupação em fazer com que isso acontecesse: “Tentávamos nos superar a cada vez, nos preocupávamos com a durabilidade daquilo, não queríamos ser apenas um retrato da época. E o legal é conseguir formar gerações de pessoas através da música, mesmo que ela tenha sido feita 20 anos atrás”, conta o guitarrista Dado Vila-Lobos.

Os exemplos são muitos: “Soldados é a trilha sonora perfeita para estas imagens da intervenção americana no Iraque. Ela fala de soldados que não sabem porque estão combatendo ou que julgam estar combatendo por uma coisa e estão na verdade por outras”, conta Jamari.

A partir desse primeiro LP, a trajetória da banda seguiu seu rumo, tornando-se porta-voz de uma geração. “Nós éramos um grupo de moleques que vieram de Brasília sem a menor pretensão, que só queriam mostrar o que faziam – e que era música – e foi muito bom enquanto durou”, relata Dado.

Apuração e texto: Débora Braunstein
Publicado na Revista do GNT – edição junho/ 2004.