16.11.03

Ela é pura vaidade

Eles se prepararam durante meses só para ouvir os gritinhos de surpresa ou de aprovação da platéia. Mais do que isso: eles esperam ver nas ruas as pessoas vestindo o que bolaram em seus ateliês. Principais passarelas da moda mundial, Paris e Milão brilharam entre setembro e outubro mostrando os novos objetos de desejo das mulheres na próxima estação. Cobiça, luxo, vaidade: sem eles a moda perde o sentido.

A editora de moda e apresentadora do GNT Fashion, Lilian Pacce, foi até lá conferir os principais desfiles. Cobrindo moda há 16 anos, ela foi se apaixonando pelo assunto até virar especialista: "entrei no jornalismo com a idéia de mudar o mundo, mas fui sendo levada pelos bastidores do mundo fashion. Moda mexe com o desejo e com a vaidade. É ligada a sedução e a conquista, e por isso é tão presente no dia-a-dia das pessoas", conta ela.

Salários milionários

Nos anos 80 começaram a surgir as super modelos, com seus salários milionários e com os desfiles virando verdadeiros acontecimentos. Para Eloysa Simão, jornalista e diretora do evento Fashion Rio, houve uma maior profissionalização do que já vinha sendo feito. "Se hoje o frenesi em torno dos desfiles é muito grande, em parte a responsabilidade é dos próprios meios de comunicação, que se desenvolveram ao mesmo tempo em que aumentava o cuidado dos estilistas na apresentação dos próprios desfiles. Afinal, a passarela sempre foi a melhor forma de mostrar e divulgar uma nova coleção", explica ela.

Para Eloysa, a moda está diretamente ligada a crescimento econômico: "na França ela sempre foi tratada como um assunto seríssimo. No Brasil mesmo, os desfiles não ganharam importância de uma hora para outra. Faz parte da nossa história os desfiles da Casa Canadá, que foram um grande sucesso na época", lembra.

E seriam os desfiles responsáveis por criar verdadeiras "febres" de consumo nas mulheres, fazendo com que no Brasil os objetos de desejo sejam os mesmos do resto do mundo? De acordo com Eloysa, tendência todos seguem: "o estilista deve detectar o comportamento do consumidor nas ruas, ver o que está sendo usado e refletir isso na passarela". Lilian concorda: "a moda reflete o que está acontecendo, ela capta coisas que ainda vão ocorrer. A guerra é um exemplo, os estilistas funcionam como antenas para perceber o desejo e o sentimento das pessoas naquele momento. A moda romântica, cheia de babados, chegou como um desejo desse público consumidor", analisa.

Bossa nova

Enquanto Gisele Bündchen é reconhecida como grande chamariz e alavanca para o Brasil no mundo fashion, outros profissionais têm procurado mostrar que o nosso talento vai além de grandes modelos e da moda praia: "existem segmentos em que a produção brasileira é muito respeitada. Bons estilistas brasileiros, trabalhando em ateliês no exterior, têm conseguido também mostrar o país", conta Eloysa.

Para ela, o mundo aprendeu a nos conhecer mesmo através da bossa nova: "a música brasileira é a verdadeira porta de entrada para todos no exterior, ela é quem traz o nosso estilo de vida. Hoje existe um restaurante em Paris chamado Favela Chic, que tem uma decoração rústica, só toca música brasileira e é um sucesso".

Cafona chique

Se fica a impressão de que já se esgotaram as grandes criações, ao menos o conceito de cafona está sendo visto de modo diferente, como fala Eloysa: "é uma questão de olhar, do local em que você está usando a peça e do momento. A moda é cada vez mais conceituação, mau gosto é o que é usado sem autenticação, de maneira deslocada. Uma roupa que ficaria terrível em um local pode ser divertida em outro. É só pensar no azul com verde e no escarpin branco, que hoje em dia chega a ser hype".

E o que podemos esperar para vestir nesse verão? A dica de Eloysa é usar o brilho durante o dia e abusar da moda esportiva, com muito zíper, para a noite. Na moda masculina, as mudanças são mais sutis: "se a mulher é mais aberta para as novidades do mundo da moda, com os homens as mudanças são mais lentas. Só a vaidade que é a mesma, eles têm assumido isso sem problemas", conta Lilian.

Além de assistir aos melhores desfiles de Paris e Milão, Lilian ainda visitou a maison da Moët & Chandon, casa onde se fabrica o champanhe, bebida preferida dos "fashionistas". Além de provar o que existe de melhor quando se fala da bebida, ela ainda procurou dicas de como tomar essa bebida para mostrar no seu programa. Tim-tim!

Apuração e texto: Débora Braunstein
Publicado na Revista do GNT – edição novembro/ 2003.