16.12.03

Quem tem medo de Ruby Wax?

Ela é conhecida por suas entrevistas impagáveis, que costumam revelar aspectos inusitados da vida de famosos como Pamela Anderson, Bette Midler, Jim Carey, Goldie Hawn e muitos outros. Ela tenta deixar seus personagens bem à vontade, mas não hesita em fazer uma careta de reprovação para as câmeras ao escutar o que não concorda. Com a famosa entrevistadora Ruby Wax não tem tempo fechado: todo dia é dia de grandes risadas.

Ruby é inglesa e começou a carreira como atriz, sem obter sucesso. “Eu era terrível atuando”, conta ela por telefone, de Londres. Ruby chegou a trabalhar escrevendo e produzindo programas e documentários, mas logo sua carreira de entrevistadora de celebridades engrenou. Hoje, para fazer um programa de apenas 30 minutos, ela grava em média 10 a 12 horas com cada entrevistado. “Eu tento deixar todos bem, os levo para passear e fazemos coisas juntos. Na hora não percebem o que dizem, mas quando assistem ao programa não acreditam que foram capazes de confessar certas coisas. Ficam escandalizados com o que falaram para mim”, revela.

Namoro arranjado

Em uma entrevista com Pamela Anderson, ela chegou a comparar o tamanho dos seios das duas e trocar conselhos sobre maternidade. Em outro momento tentou arrumar um namorado para a sua própria filha com o filho de Pamela! “Eu sou paga para ser engraçada, se o entrevistado é chato penso que tenho que fazer alguma coisa. Quando a pessoa é interessante eu fico quieta”, conta Ruby.

A entrevista que Ruby considera mais interessante em sua carreira foi com OJ Simpson, feita há cerca de três anos. Ela o levou para passear nas ruas e Simpson cumprimentou pessoas que exclamavam que “nunca tinham apertado a mão de um assassino antes”. Ele também brincou com Ruby de esfaqueá-la com uma banana. “Eu fiz essa entrevista por prazer profissional, para satisfazer a uma curiosidade minha. É claro que com ele não fui tão engraçada”, conta ela.

Sem arrependimentos

Para não causar grandes constrangimentos, Ruby chega a tirar certas cenas da edição final a pedido de seus entrevistados: “Se a pessoa não quiser que eu coloque algo no ar acabo tirando, tento ser justa com eles, ser igual. Eles me dizem muitas coisas e tenho que dar esse retorno para eles. Se os artistas ficam zangados a entrevista acaba”, explica.

E afinal, o que tira Ruby Wax do sério? “O público achar que o que está assistindo levou somente trinta minutos para ser feito. Eu fico horas e horas falando para poder tirar o melhor e não percebem todo o trabalho que existe por trás das câmeras”, exclama ela.

Apuração e texto: Débora Braunstein
Publicado na Revista do GNT – edição dezembro/ 2003.

14.12.03

¡Baila con gusto!

Até poucos anos, Ibrahim Ferrer fazia bicos em Havana. Hoje é um dos artistas cubanos mais respeitados no circuito mundial de world music. O mesmo aconteceu em menor ou maior escala com toda uma geração de músicos talentosos como o recém-falecido Compay Segundo, Ruben Gonzalez, Eliades Ochoa e Omara Portuondo, inaugurando a franquia Buena Vista, capitaneada pelo produtor Ry Cooder e o cineasta Wim Wnders.

O resultado vai além dos mais de quatro milhões de CDs vendidos no mundo, segundo a BBC. O fenômeno trouxe a música caribenha de volta à cena, depois de ter conquistado o mundo com suas rumbas, boleros e chá-chá-chás. Claro que o sucesso acabou chegando ao Brasil. Enquanto os moradores mais ao sul do país estão descobrindo os prazeres de dançar ao som da salsa e do merengue, a proximidade geográfica e o passado histórico fazem com que, para quem mora no nordeste brasileiro, o Caribe seja aqui.

“Eu sou yorubá e com isso tenho as mesmas influências que a população do Caribe, todos oriundos da cultura negra. A África é que influencia a nossa cultura, com a vinda dos negros de Angola”, conta o cantor e compositor Carlinhos Brown. Em julho de 2003, Carlinhos lançou o disco "Carlito Marrón", que busca recuperar o prestígio de ritmos como a rumba, o bolero e a salsa no Brasil, além de realçar a presença dessas influências na Bahia.

Salsa não é merengue

A ex-VJ e agora documentarista Carolina Sá, que dirigiu a série “Música Libre” sobre os ritmos caribenhos, concorda com Carlinhos: “vejo na Bahia e no Maranhão muita influência desses ritmos, a proximidade entre o Brasil e esses países é muito grande. A própria música do Brown é totalmente esses ritmos, o Caribe é ali do lado”, conta ela.

Para o documentarista Belisário Franca, que na década de 90 lançou com Hermano Vianna uma série chamada "Baila Caribe", a proximidade entre os próprios países das ilhas não quer dizer muita coisa: os ritmos são completamente diferentes entre si. "O que existe hoje nesses lugares é uma mistura de povos muito grande. Existem ilhas que foram de colonização francesa, espanhola e até mesmo imigração de indianos, como em Trinidad & Tobago, que era colônia da Inglaterra", explica ele. É como um estrangeiro falar que o samba é igual ao forró. Cada ritmo tem a sua peculiaridade.

Cada país tem um ritmo que é mais marcante e conhecido: em Cuba é a salsa, na República Dominicana o merengue, em Trinidad & Tobago é o calypso, no Haiti a konpa e na Jamaica o danceholl. “Na Jamaica, por exemplo, quase não se houve mais reggae. Hoje a sensação é o danceholl, que é uma mistura do reggae com a influência dos DJs. Se tivesse que fazer uma comparação, diria que as mulheres dançam esse ritmo como se estivessem em um baile funk carioca. É uma dança muito rápida”, conta Carolina.

Retorno às origens

De acordo com Belisário, a música que fazia sucesso nas décadas de 40 e 50 era a do Caribe: "quem mandava no mundo antes de surgir o rock´and´roll era o Caribe, com presença inclusive no Brasil. Era a música que se ouvia na época. Esse sucesso só voltaria com Bob Marley e o reggae, que conseguiu tomar espaço de volta na mídia décadas depois", conta ele. Carolina concorda: "esse interesse é cíclico, já aconteceu antes. Dizem que as maiores riquezas musicais estão presentes no Brasil, Estados Unidos e Cuba. O merengue é uma potência no mundo”, conta ela.

Com tantas semelhanças, porque o brasileiro ainda encara com certo preconceito a música latina? Para Carlinhos, a diferença no idioma faz com que não nos identifiquemos como latinos que somos. "O português não pode ser uma barreira, está na hora de nos reconhecermos como latinos e olharmos para os nossos próprios umbigos. O Brasil não é “kubanacan”, devíamos aprender com Cuba o seu processo educacional e deixarmos de acreditar que a cultura latina é brega", exclama ele.

Apuração e texto: Débora Braunstein
Publicado na Revista do GNT – edição dezembro/ 2003.


13.12.03

Com o Casseta não há quem possa!

Um símbolo de orgulho nacional é roubado por um grupo de ladrões pés-de-chinelo no prédio da CBF. A Taça Jules Rimet, conquistada pelas vitórias nas Copas do Mundo de 1958, 1962 e 1970, foi vendida e derretida para ser assumida como um dos maiores vexames da história do Brasil. Essa história absurda foi a inspiração do Casseta & Planeta para seu primeiro filme, que tem como pano de fundo a ditadura na década de 70.

“Estamos bastante ansiosos com esse lançamento, querendo que o público goste muito. Somos todos cinéfilos e é a nossa tentativa de entrarmos para o cinema, que é a alta-costura, sem virarmos veados. É também a primeira vez que esse período negro de nossa história é tratado com humor. A taça Jules Rimet era o Santo Grau para o Brasil”, conta o humorista Marcelo Madureira.

Roteiro a 14 mãos

Foram seis semanas de filmagens e cerca de cinco anos para chegar a um roteiro que agradasse a todos. Os humoristas se dividiram em três, para que cada parte do filme pudesse ser trabalhada em separado, por grupos. Depois eles trocavam os grupos e tudo era reescrito. “Definimos o roteiro e trabalhamos arduamente nele, como sempre, a 14 mãos”, conta Marcelo.

De acordo com o diretor do filme Lula Buarque de Hollanda, cada detalhe foi discutido: “ao contrário dos programas na televisão, a idéia era produzir uma história com começo, meio e fim. Como todos são redatores, eles possuem uma relação muito forte com a palavra. Você tem que virar um deles, vencer pelo argumento”, conta Lula, que estreou na direção de longa-metragem de ficção.

Humor nacional

O filme “Casseta & Planeta” chega em um bom momento no cinema, que desde a retomada teve poucas iniciativas de filmes populares e humorísticos. Com o fim da chanchada e dos filmes com Oscarito e Grande Otelo, o cinema nacional produziu poucos representantes desse tipo de humor: “existe uma demanda grande por esse tipo de filme. Vemos hoje o filme Os Normais arrebentando com sucesso de público. O filme Eu, Tu, Eles não é comédia, mas também acho engraçado”, conta Marcelo.

A idéia do grupo é produzir uma série de filmes, inaugurando a franquia cinematográfica Casseta & Planeta. Lula, que já conhecia parte do grupo desde a época de faculdade, sabe que a expectativa em torno do filme é grande: “tenho muita vontade de dirigir outro filme com eles, lançando um novo longa-metragem a cada dois anos”. Para Marcelo, a preocupação com tantos detalhes gerou uma espécie de “ourivesaria humorística”: “colocamos nele tudo da nossa vida e da nossa carreira. É a nossa primeira vez e demos o nosso melhor”, explica Marcelo, sem trocadilhos.

Apuração e texto: Débora Braunstein
Publicado na Revista do GNT – edição dezembro/ 2003.