14.12.03

¡Baila con gusto!

Até poucos anos, Ibrahim Ferrer fazia bicos em Havana. Hoje é um dos artistas cubanos mais respeitados no circuito mundial de world music. O mesmo aconteceu em menor ou maior escala com toda uma geração de músicos talentosos como o recém-falecido Compay Segundo, Ruben Gonzalez, Eliades Ochoa e Omara Portuondo, inaugurando a franquia Buena Vista, capitaneada pelo produtor Ry Cooder e o cineasta Wim Wnders.

O resultado vai além dos mais de quatro milhões de CDs vendidos no mundo, segundo a BBC. O fenômeno trouxe a música caribenha de volta à cena, depois de ter conquistado o mundo com suas rumbas, boleros e chá-chá-chás. Claro que o sucesso acabou chegando ao Brasil. Enquanto os moradores mais ao sul do país estão descobrindo os prazeres de dançar ao som da salsa e do merengue, a proximidade geográfica e o passado histórico fazem com que, para quem mora no nordeste brasileiro, o Caribe seja aqui.

“Eu sou yorubá e com isso tenho as mesmas influências que a população do Caribe, todos oriundos da cultura negra. A África é que influencia a nossa cultura, com a vinda dos negros de Angola”, conta o cantor e compositor Carlinhos Brown. Em julho de 2003, Carlinhos lançou o disco "Carlito Marrón", que busca recuperar o prestígio de ritmos como a rumba, o bolero e a salsa no Brasil, além de realçar a presença dessas influências na Bahia.

Salsa não é merengue

A ex-VJ e agora documentarista Carolina Sá, que dirigiu a série “Música Libre” sobre os ritmos caribenhos, concorda com Carlinhos: “vejo na Bahia e no Maranhão muita influência desses ritmos, a proximidade entre o Brasil e esses países é muito grande. A própria música do Brown é totalmente esses ritmos, o Caribe é ali do lado”, conta ela.

Para o documentarista Belisário Franca, que na década de 90 lançou com Hermano Vianna uma série chamada "Baila Caribe", a proximidade entre os próprios países das ilhas não quer dizer muita coisa: os ritmos são completamente diferentes entre si. "O que existe hoje nesses lugares é uma mistura de povos muito grande. Existem ilhas que foram de colonização francesa, espanhola e até mesmo imigração de indianos, como em Trinidad & Tobago, que era colônia da Inglaterra", explica ele. É como um estrangeiro falar que o samba é igual ao forró. Cada ritmo tem a sua peculiaridade.

Cada país tem um ritmo que é mais marcante e conhecido: em Cuba é a salsa, na República Dominicana o merengue, em Trinidad & Tobago é o calypso, no Haiti a konpa e na Jamaica o danceholl. “Na Jamaica, por exemplo, quase não se houve mais reggae. Hoje a sensação é o danceholl, que é uma mistura do reggae com a influência dos DJs. Se tivesse que fazer uma comparação, diria que as mulheres dançam esse ritmo como se estivessem em um baile funk carioca. É uma dança muito rápida”, conta Carolina.

Retorno às origens

De acordo com Belisário, a música que fazia sucesso nas décadas de 40 e 50 era a do Caribe: "quem mandava no mundo antes de surgir o rock´and´roll era o Caribe, com presença inclusive no Brasil. Era a música que se ouvia na época. Esse sucesso só voltaria com Bob Marley e o reggae, que conseguiu tomar espaço de volta na mídia décadas depois", conta ele. Carolina concorda: "esse interesse é cíclico, já aconteceu antes. Dizem que as maiores riquezas musicais estão presentes no Brasil, Estados Unidos e Cuba. O merengue é uma potência no mundo”, conta ela.

Com tantas semelhanças, porque o brasileiro ainda encara com certo preconceito a música latina? Para Carlinhos, a diferença no idioma faz com que não nos identifiquemos como latinos que somos. "O português não pode ser uma barreira, está na hora de nos reconhecermos como latinos e olharmos para os nossos próprios umbigos. O Brasil não é “kubanacan”, devíamos aprender com Cuba o seu processo educacional e deixarmos de acreditar que a cultura latina é brega", exclama ele.

Apuração e texto: Débora Braunstein
Publicado na Revista do GNT – edição dezembro/ 2003.


1 Comments:

At 21 de agosto de 2004 02:19, Blogger Cris Passinato said...

E eu que perdi o show dele aqui no Rio, mas o vi no Jô e fiquei apaixonada!
Bjinhos,
Cris

 

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