19.1.04

Diário nada secreto

Ele deixou de ser secreto e pessoal para se espalhar em milhares de páginas na internet. Os blogs, que nada mais são do que diários virtuais, fizeram tanto sucesso que já possuem até variação, os fotologs – diários fotográficos. Ao colocar seus pensamentos na internet, eles funcionam como confessionário ao mesmo tempo íntimo e público para milhares de pessoas.

“Tenho uma amiga que usa muito a expressão ‘elefantíase no ego’ e acho que os blogs vão muito por aí. A pessoa se expõe para encontrar outras com que tenha afinidades. O blog não é um espaço para falar do que você fez, e sim para falar de si”, diz Leonardo Moura, responsável pela estratégia online do marketing do GNT. É muito fácil se impressionar com o fenômeno, como aconteceu com o jornalista e blogueiro Mauro Ventura: “Achava os blogs um diariozinho sem conseqüências, mas é impressionante a velocidade com que as pessoas estão aderindo a eles”.

Escrita íntima

A editora Civilização Brasileira lança este ano o livro “Blogs: comunicação e escrita íntima na internet”, escrito pela jornalista Denise Schittine, casada com Mauro. A obra é resultado da tese de mestrado em comunicação de Denise pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Para ela, os blogs são a ponta de um problema contemporâneo: a mistura entre espaço público e privado. “Você liga a televisão e está passando o Big Brother, em que assistimos a outras pessoas viverem as suas próprias vidas. É que nem uma novela: você fica querendo saber o que vai acontecer e busca se reconhecer nos outros. As pessoas querem ver no próximo o espelho de si mesmas”, define

Os blogs, lembra Denise, não trazem o embate que é falar de frente para alguém, graças à proteção que é a tela do computador. “No momento em que você fala algo bobo e chega alguém do outro lado e diz ‘eu também’, você se reconhece e encontra seus pares. E o blogueiro ainda pode escolher o que quer mostrar de si mesmo, sem precisar mostrar a cara”, explica Denise. Mauro concorda: “De repente não contaria algumas coisas que escrevo para um amigo, mas o distanciamento que o computador oferece permite a você se abrir”.

“As pessoas têm buscado, via internet, conhecer e descobrir quem possui interesses em comum com elas. As comunidades virtuais formadas pelo GNT são um exemplo disso. A pessoa sabe que dentro do site do Alternativa Saúde vai encontrar informações e pessoas para conversar sobre o assunto, assim como no do GNT Fashion vai poder trocar dicas de moda”, explica Leonardo.

Sem leitores, sem blogs

Se o diário de antigamente era escrito com total liberdade – e deveria ser mantido em segredo a qualquer custo – o blog já passa pelo controle dos seus leitores. “Tenho liberdade em escrever mas sou balizado pelos leitores, é com base no retorno das pessoas que escolho os assuntos sobre os quais escrevo. Tento o equilíbrio. Se fico muito tempo tratando de violência, trato de mudar para não cansar”, conta Mauro.

Para Denise, o que o blogueiro deve ter em mente é que nem sempre existe total liberdade para escrever se ele quiser ser bem aceito e bem acessado. “Isso tira um pouco o desprendimento dos antigos diários, já que a pessoa fica atenta aos erros de português e a possíveis críticas”, compara.

Jornalismo no blog?

No caminho do sucesso dos blogs, foram surgindo outras vertentes. As mais conhecidas são os fotologs e os blogs de conteúdo jornalístico. Como o próprio nome já diz, os fotologs são blogs em que a pessoa, ao invés de escrever, coloca fotos que tirou no seu dia-a-dia. Vale tudo: desde fotos do cachorro da vizinha e da carrocinha de pipoca até do chefe no trabalho. “Acho o fotolog um caminho natural, vou acabar criando um desses também”, imagina Mauro.

Na época do atentado às torres gêmeas, no dia 11 de setembro de 2001, a cobertura dos blogs se destacou em relação aos grandes sites, congestionados com o número recorde de acessos. O mesmo aconteceu na Guerra do Iraque, em que vários iraquianos criaram blogs retratando o horror que acontecia em seu país. “O blogueiro tem em comum com o jornalista a perseverança, por ambos correrem atrás de notícias interessantes. Mas mesmo no caso de blogs mais jornalísticos, ele continua sendo uma escrita íntima, é o ponto de vista de quem está vivendo aquilo”, completa Denise.

Apuração e texto: Débora Braunstein
Publicado na Revista do GNT – edição janeiro/ 2004.

3 Comments:

At 21 de agosto de 2004 02:10, Blogger Cris Passinato said...

Como forte usuária, sei que nem sempre é esse o enfoque, como um diário e nem tão pouco de tanta exposição da figura, eu, por exemplo, não tenho grana pra me divulgar e pra financiar um livro e escrevo desde novinha.
Óbvio, há quem diga que não escrevo nada, mas pelas minhas estatísticas de retorno a grande maioria que lê meus textos, não necessariamente de confidências e nem de rotinas diárias, enfim, esse público que me retorna, em sua maioria, identifica-se com meus conteúdos e acabo tendo uma reversibilidade e troca mto intensa, dando-me mais argumento, mais interatividade quando guardava meus textos até alguns anos atrás debaixo de meu colchão pra esconder de meus pais.
Sem dizer nas parcerias e amizades que efetuamos e acabamos por cindir alguns acordos de troca de links, indicações como uma espécie de elo, ou corrente de marketing próprio, o que pra nós é natural, pois não gastamos com isso um centavo e nossos textos são expandidos e mais lidos.
Além disso tudo, vcs já pensaram na possibilidade que a língüa, a palavra foi feita pra servir mesmo de canal de comunicação e que essas ferramentas, apesar de mtas vezes ser mal utilizada sob o ponto de vista de alguns, ela acaba ampliando muito a difusão da língüa como canal de comunicação da forma mais genuína possível da palavra?
Há de se pensar por esse lado tb!
Bjinhos,
Cris

 
At 21 de agosto de 2004 04:59, Blogger Cris Passinato said...

Mil perdões, querida Débora, mas eu usei uma palavra completamente fora de contexto e conotação - cindir - seria outro o termo, nós aqui efetuamos uma espécie de parceria nas trocas de links, e cindir seria de quebra de acordo, dando uma idéia contrária ao que eu queria te falar, perdão...
Bjinhos,
Cris

 
At 21 de agosto de 2004 05:02, Blogger Cris Passinato said...

ixi, mas errei foi mto, concordância nominal e outros bichos mandaram lembranças...
Bem, não sou jornalista, nem fiz letras, mas é isso aí, tenho noção dos meus errinhos, que não são poucos e não são mole, rsrs...
Q VERGONHA, ihihihi
Bjinhos,
Cris

 

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