14.2.04

Botando o bloco na rua

Eles agora são muitos. Democráticos, partem de todos os cantos da cidade com o único objetivo de brincar e dançar muito. Se a Sapucaí está cada vez mais dedicada aos turistas e os clubes não fazem bailes de carnaval como antigamente, os blocos de rua retornam a cada ano com mais força. Os cariocas que estavam acostumados a viajar nesta época do ano começam a avaliar se o Rio não é o melhor destino. Afinal, quem quer perder essa farra movida a samba?

“O turista vem para o Rio de Janeiro assistir ao desfile na Sapucaí, mas e depois? Não tinha mais nada para fazer, os próprios cariocas não tinham muita opção. Antigamente todos viajavam, mas hoje em dia estão ficando, já que os blocos desfilam de quarta a quarta”, conta Floriano Marques Torres, primeiro-secretário do Sebastiana e diretor do bloco “Que Merda é Essa?”.

O Sebastiana é uma associação independente dos blocos de carnaval da Zona Sul, Santa Teresa e Centro da Cidade, que tem por objetivo incentivar manifestações carnavalescas e ajudar na organização geral dos desfiles, como trânsito, aluguel de carro de som e segurança para os participantes. Do Sebastiana participam os blocos Simpatia é Quase Amor, Barbas, Meu Bem Volto Já, Que Merda é Essa?, Imprensa que eu Gamo, Bloco de Segunda, Carmelitas, Escravos da Mauá, Bloco da Ansiedade, Bloco Virtual, Rio Maracatu e Cordão do Boitatá.

Bar da Dona Maria

A criação da maioria dos blocos cariocas surge a partir de um grupo de amigos, que decidem se juntar para brincar o carnaval com a sua vizinhança. Essa também é a história do Nem Muda nem Sai de Cima, que foi criado por um grupo de 20 amigos, entre eles os compositores Moacyr Luz e Aldir Blanc. Desde o mês de novembro o bloco tem se reunido para ensaios no Bar da Dona Maria, que fica na Rua Garibaldi (Tijuca). O desfile este ano é no dia 07 de fevereiro.

De acordo com Maria Lúcia Ribeiro Dieguez, diretora do Nem Muda, o bloco foi criado há nove anos: “É um bloco apolítico, embora o PT tenha freqüentado muito, recebemos a todos bem. Os blocos permitem um carnaval livre, familiar, em que podemos levar as crianças e brincar. O desfile começa com duas charretes na frente e tocamos somente o samba escolhido, que será este ano em homenagem ao centenário do América Futebol Clube”, explica ela.

Cada bloco costuma convidar a bateria da escola de samba do seu bairro para acompanhar o desfile, além de contratar carro de som e buscar apoio das autoridades para controle do trânsito. Para pagar os custos, os blocos produzem a cada ano uma camiseta, que é vendida entre seus participantes. Na maior parte das vezes, ela é a única fonte de renda do bloco.

Mistura de sonoridades

Um dos responsáveis pela retomada dos blocos de rua cariocas é o Monobloco, que foge do modelo tradicional. Criado em 2000 pelo grupo Pedro Luís e a Parede, por ocasião de uma oficina bem sucedida de percussão, o bloco virou a sensação da cidade nos últimos três verões. A mistura de sonoridades como samba, funk e pop surpreendeu o público em ensaios que viraram um grande sucesso.

“Acabou surpreendendo a resposta do público, chegamos em um momento bom. O Monobloco gerou uma aproximação de quem gosta de carnaval com a música pop e vice-versa. A oficina se fortaleceu e hoje a bateria toca coisas cada vez mais sofisticadas”, conta Pedro Luís. O desfile do Monobloco em 2004 será no dia 15 de fevereiro, com ensaios que começam no início do mês na Fundição Progresso.

Para este ano, o Monobloco promete continuar com as misturas musicais, tocando muito Tim Maia, Jorge Benjor, marchinhas carnavalescas, sambas enredos clássicos e artistas consagrados como Luiz Gonzaga.

Estatística

Pedro Luís acredita que, mais do que brincar no carnaval, os blocos alteram uma triste estatística da cidade: a violência. “O Rio é uma cidade bonita, já tem essa vocação de diversão, e os blocos estão fazendo esse papel. As pessoas querem sair nas ruas para se divertir e a dureza da cidade foi afastando e perdendo um pouco isso. Acho que eles ajudam a coibir um pouco a violência”, conta ele.

Mesmo com tão poucos dias de carnaval para tantos desfiles de blocos, todos tentam encontrar uma alternativa para não coincidir horários. Afinal, o público que freqüenta um bloco costuma pular carnaval no bloco do amigo. “Quem vai a um, vai aos outros, já que são todos de pessoas conhecidas”, explica Floriano. Maria Lúcia concorda: “Não existe concorrência, cada um freqüenta o bloco do outro. Quanto mais blocos melhor, mais a gente brinca”, conclui.

Apuração e texto: Débora Braunstein
Publicado na Revista do GNT – edição fevereiro/ 2004.