16.7.04

Orkut quem?

Ele funciona como um clube fechado, em que só participa quem é convidado por e-mail através de um amigo ou conhecido. Criado por um funcionário do poderoso site de buscas Google, responsável pela sua manutenção, o Orkut funciona como organizador de uma rede de relacionamentos. Ele permite tanto que pessoas que se conhecem restabeleçam contato como que comunidades sejam criadas a partir de perfis e interesses em comum. E que novas amizades surjam a partir dele, alimentando o sistema.

“Já encontrei pessoas que não via há dez anos e descobri coisas incríveis sobre elas. É uma forma de manter contato com quem gosto, acabo entrando todos os dias. É também uma forma de catalogar os conhecidos, já que os amigos de verdade contamos nos dedos. Como sou escritor, aproveito o Orkut para me relacionar com meus leitores, que me descobrem no sistema e me adicionam no círculo de contatos deles”, conta João Paulo Cuenca, autor do livro “Corpo Presente”.

JP Cuenca > Gabriela Dias

Ao receber o convite, o novo usuário deve preencher um extenso formulário, em que são perguntados seus hábitos pessoais, preferências culturais e até mesmo sexuais. A resposta é livre e não obrigatória, compondo o seu perfil. É permitido e até recomendável acrescentar uma foto, que servirá como referência.

“Tem sempre alguém que pergunta que negócio é esse de ‘chucrute’. Como as pessoas só entram por convite, existe o vínculo de um usuário que é responsável por você, como se fossem referências. Não vira uma babel e gera curiosidade nas pessoas”, afirma o jornalista e escritor Dodô. Como no Orkut é possível chegar no perfil de uma pessoa através de outra, encontramos Cuenca no sistema através da editora Gabriela Dias, cadastrada na rede de Dodô.

Após criar o seu perfil, o usuário pode procurar seus amigos e adicioná-los à sua rede de contatos. Na página de cada integrante do Orkut, é possível deixar comentários sobre aquela pessoa, ilustrada com ícones que traduzam a imagem que o usuário passa para o restante do grupo – se tem admiradores (estrela), se conquistou a confiança do grupo (smile), se é cool (pedrinha de gelo) ou sexy (coração). A popularidade do usuário é medida pela quantidade de amigos listados, depoimentos e símbolos, mostrando que, no final, tudo termina em uma grande guerra de egos.

Gabriela Dias > Dodô

Outra possibilidade é procurar comunidades sobre os mais diversos temas para interagir. Se a utilidade do sistema não parece muito fácil de compreender em um primeiro momento, o novo usuário percebe, rapidamente, que o Orkut vicia. “Eu fui um dos últimos a entrar na onda, sempre fui anti-nerd. Na primeira vez em que entrei, acabei saindo só quatro horas depois. O Orkut permite que você fique de voyer lendo tudo sobre quem participa, além de poder se comunicar com mais facilidade com pessoas com o mesmo perfil que o seu. E você ainda pode tirar vantagem dele ao anunciar eventos, festas e até currículos”, explica Dodô.

Gabriela Dias, a amiga em comum de Cuenca e Dodô, afirma ter uma relação de amor e ódio com o site: “Ele tem pouca utilidade prática, não conheci ninguém bacana, quem está na minha lista já era conhecido e não reencontrei ninguém. Me inscrevi nas comunidades mas acho elas de difícil navegação e chatas para freqüentar. Estava até brincando que devo fazer um manifesto anti-orkut, mas tenho amigos que amam e possuem 500 pessoas cadastradas”, afirma a editora.

Pedro Ivo > JP Cuenca > Gabriela Dias > Dodô

Pedro Ivo, que trabalha com marketing na internet e tem em Cuenca um amigo em comum com Gabriela (e que por isso tem acesso ao perfil do Dodô), lembra que o Orkut nasceu no rastro de outros sites semelhantes como Friendster e Linkedin. “Todos eles partem de uma idéia de que todas as pessoas no mundo são conectadas umas às outras através de seis pessoas. O que esses sites fazem é ligar os conhecidos de todos para formar uma rede”, explica.

A paranóia que tem cercado os usuários do Orkut se refere ao uso que o Google tem feito com as informações disponibilizadas pelas pessoas ao se cadastrarem. “Existe uma cláusula que o usuário assina que garante o direito deles de usarem qualquer informação que inserirmos no sistema. Se quiserem podem vendê-la, é o preço que se paga”, alerta Pedro.

Já Dodô não se importa muito com isso: “Tem quem ache o Orkut o mensageiro do anti-Cristo. Não é nenhum fato novo esse tipo de pesquisa e busca por essas informações. Quando passa o comercial de um programa de televisão os responsáveis sabem exatamente qual é o perfil do público que está lá assistindo. Somos ais previsíveis do que imaginamos”, conta ele. Para quem ficou curioso e ainda não recebeu o e-mail de permissão, só resta esperar. Ou então procurar em alguns sites de leilões nos Estados Unidos, onde um convite pode ser comprado por até US$10,00.

Apuração e texto: Débora Braunstein
Publicado na Revista do GNT – edição julho/ 2004.